segunda-feira, 3 de maio de 2010

Ateísmo é religião? (Texto alheio)

Há poucos dias, eu estive lendo alguns conspiracionistas célebres da blogosfera nacional e acabei desabafando no Twitter:

Estranho imaginar que escrever no Twitter é como se pronunciar diante de umas centenas de pessoas que ficam olhando constantemente pra você.


Li esta frase há algum tempo mas não me recordo ao certo quem é o autor — tem cara de ser do Dawkins. O comentário repercutiu e, para minha felicidade, um leitor que nunca havia se pronunciado antes, Sr. Coisinha, elaborou um bom argumento que vai de encontro à minha ideia. Inclusive, apontou-me a falácia do apriorismo dentro desta “minha frase do Dawkins” (perdoem-me, mea culpa). Eis aqui seu comentário, que saliento ser ótimo:


Posso suge­rir a pró­xima falá­cia? Falá­cia da pres­su­po­si­ção falsa, você já tem até um exem­plo pronto: “Como dizem, afirmar que ateísmo é religião seria o mesmo que afirmar que calvície é uma cor de cabelo” (Cafetron). Da última vez que eu ví, ateísmo pres­su­pu­nha fé na ine­xis­tên­cia de deu­ses, tente adi­vi­nhar a defi­ni­ção fun­ci­o­nal para religião: “Um sis­tema de cren­ças supor­tado com ardor e/ou fé”, Pres­su­po­si­ções errô­neas: a) ateísmo não neces­sita de fé; b) para ser uma reli­gião é neces­sá­ria a exis­tên­cia de dogmas. Creio que o mais ade­quado, caso você que­ria con­ser­tar sua ana­lo­gia, seja subs­ti­tuir ateísmo por agnos­ti­cismo empí­rico, já que o estrito denota fé.



Por que estou enfatizando tanto que gostei de ser discordado? Acontece que discordar é diferente de trollar. Todos nós deveríamos nos alegrar quando um evento desses toma forma, pois argumentos concretos que confrontam nosso ponto de vista são a base para uma discussão saudável e frutífera para ambos os lados. Além disso, serve de instrumento para que você reveja se seus conceitos ainda são adequados e se há a necessidade de repensar sobre um assunto. Você não quer se ater a uma opinião cegamente e viver agarrado a ele por puro preconceito para o resto dos seus dias, certo? O que você diria para seus netos?


Como eu gostei da brincadeira do Sr. Coisinha, e levando em consideração que este blog é meu e tenho poderes sobrenaturais sobre ele, vou reverter a conclusão, baseando-se por seu comentário e mostrando que nele também há uma falácia.


CONCLUSÃO: Ateísmo é religião.


RAZÃO: Assim como a religião, o ateísmo é um sistema de crenças suportado com ardor e/ou fé.


Confesso que nunca pensei do seguinte modo, mas — é verdade — ateus são crentes. Obrigado, Sr. Coisa, por expandir minha visão. Os ateus são crentes de que não existe uma força maior por trás dos fenômenos naturais (sendo que nada é impossível; improvável, talvez). Por definição, esta é uma questão de fé, pois o ateu tomou uma posição em relação à existência ou não de entidades divinas, sem possuir evidências concretas que corroborem sua decisão.


A ausência de evidência não é evidência da ausência.


Esta posição é diferente da posição de um agnóstico que, por sua vez, não toma posição alguma; ser agnóstico é simplesmente aceitar o fato de que não há evidências sobre a existência de deuses, bem como não há como comprovar empiricamente que não exista; a conclusão fica em suspenso até um momento mais oportuno.


Mas a falácia no argumento do Sr. Coisinha não se relaciona à fé ateísta, mas à definição de religião per se.


Sua conclusão final de que “ateísmo é uma religião” só pode ser verdadeira se assumirmos que, para conseguir a qualificação de religião, basta ter fé. Esta é a falácia do reducionismo[1]. Perceba que o conceito de religião em si foi simplificado para um único pré-requisito. Em contrapartida, consta no dicionário Aurélio[2] que religião pode ter uma relação numerosa de conceitos, como:



  • Crença na existência de uma força ou forças sobrenaturais, considerada(s) como criadora(s) do Universo, e que como tal deve(m) ser adorada(s) e obedecida(s);

  • A manifestação de tal crença por meio de doutrina e rituais próprios, que envolvem, em geral, preceitos éticos;

  • Reverência a coisas sagradas, ou seja, profundamente respeitáveis, que não podem ser infrigidas ou violadas;

  • Qualquer filiação a um sistema específico de pensamento ou crença que envolve uma posição filosófica, ética, metafísica etc.

Dentre essas, ao meu ver, o conceito de ateísmo se enquadra tão mal quanto o conceito do próprio teísmo, pois ambas dispensam rituais e doutrinações por definição — uma pessoa pode ser teísta e não ter religião, por exemplo. Perceba, então, que o ateísmo se encaixa muito bem somente no último item.


Curiosidade
Em relação ao primeiro item, precisa mesmo haver uma entidade divina e controladora para que a religião se concretize? Você talvez se lembre do caso interessante do Budismo. Em algumas de suas vertentes, a idéia de um ser superior que maestra o Universo, ou não existe, ou é bem limitada[3]. Tais escolas, que são bem recepcionadas no Ocidente, embora vistas erroneamente por alguns como nihilistas, são o centro de grandes discussões sobre como devem ser chamadas: religião ou filosofia de vida?


Portanto, como o ateísmo envolve uma crença que defende uma posição filosófica (negação de uma força metafísica maior), mas não venera o sagrado, tampouco envolve doutrinas ou rituais próprios (salve comer uma porção de fritas no boteco com amigos e filosofar sobre a não-existência dos deuses), creio que seria adequado classificar ateísmo mais como uma simples “crença” do que como “religião”.


PORÉM: Tudo bem, ateísmo pode não ser uma religião, mas a analogia entre ateísmo e calvície, previamente citada por mim no Twitter, não deixa de estar errada. Ao fazer a comparação, foi como dizer que um ateu é aquele que não tem religião, quando, na verdade, é possível haver religiosos ateus [4], assim como ateus religiosos[5].


Espero que tenham tirado algum proveito deste exemplo de como racionalizar sobre um discurso. Façam como o Sr. Coisinha. Lembrem-se de não ter medo de, por alguns instantes, usar os óculos do ponto de vista contrário, pois como disse Eliezer Yudkowsky[6]:


A segunda virtude (da Razão) é a renúncia. P. C. Hodgell disse: “O que pode ser destruído pela verdade, que seja”. Não foge de experiências que possam destruir tuas crenças. O pensamento que não podes pensar controla-te mais do que os pensamentos que dizes em voz alta. Submete-te a provocações e testa-te em fogo. Renuncia a emoção que repousa sobre uma crença equivocada e procura sentir-te plenamente que é a emoção que se encaixa aos fatos. Se o ferro se aproxima do teu rosto, e achas que é quente, e é frio, o Caminho se opõe a seu medo. Se o ferro se aproxima do teu rosto, e achas que é frio, e é quente, o Caminho se opõe à tua calma. Avalia as tuas crenças primeiro e só depois chega às tuas emoções. Deixa-te dizer: “Se o ferro está quente, eu desejo acreditar que é quente, e se for frio, e desejo acreditar que é frio”. Não te apega a crenças que não podes querer.
E depois vêm me falar que cientistas não sabem enterrar ser românticos. E mais uma vez: acalmem-se. O resultado daquela pesquisa com números não foi esquecido, nem a continuação do Falaciorum.


Cafetron


Colaboração: Lorena Brito

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